AS RELAÇÕES ENTRE PORTUGAL E A CHINA Uma abordagem bilateral aos primeiros contactos

Jorge Morbey

  〔提要〕本文根據筆者為從事有關葡中關係之史料比較研究所收集及整理之文獻而作。
  由於中文史料鮮為西方所了解,故在此援引較多,且筆者樂意將藉以獲得之知識不加保留地與更多人分享和交流。

1. O conhecimento europeu sobre a China, no secul0 XVI


  “Perguntarees pollos çhijns, e de que parte veem, e de cam lonje, e de quamto em quamto vem a Mallaca ou aos lugares em que trautam, e as mercadarjas que trazem, e quamtas d’elles vem cada anno, e pellas feyções de suas naaos, e se tornaram no anno em que veem, e se teem feitores ou casas em Mallaca ou em outra allguua terra, e se sam mercadores riquos, e se ssam homeens fracos se guerreiros, e se teem armas ou artethas rjas, e que vestidos trazem, esse ssam gramdes homees de corpos, e toda a outra enformacam d’etles, esse ssam cristaãos se gentios, ou sse he granmde terra a sua, esse teem mais de hum rey entre elles, esse vyveem entre elles mouros ou outra algua gente que nam vyva na sua lley ou crença, e, sse nam ssam cirstãos, em que creem ou a quem adoram, e que costumes guardam e parà que parte se estemde sua terra, e com que confynam”(1).
  Este excerto do Regimento de Diogo Lopes de Sequeira, dado pelo Rei D. Manuel I, em 1508, constituiu a primeira manifestação de vontade de Portugal em conhecer a China. Nele são bem visíveis as características de um inquérito sobre cujos resultados assentaria a estruturação das relações entre os dois países. Ressaltam os pedidos de informação sobre a configuração geográfica, o comércio externo e sua implantação no exterior, a marinha mercante e a periodicidade das suas ligações além-fronteiras, a capacidade financeira dos agentes económicos, o poderio militar, a religião, o poder político, as características antropofísicas da população, a organização da sociedade, etc.
  Com a vizinha Espanha, Portugal era o que em Ciência Política modernamente se designa por “Estado-director” ou “Estado-líder” cujo reconhecimento, à luz das regras do Direito Internacional Público medieval europeu, adviera da ratificação concedida pelo Papa Júlio II, em 1506, ao Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 pelos dois países ibéricos.
  À luz dos conceitos actuais, afigura-se carregada de eurocentrismo a ideia de considerar Portugal e a Espanha como os dois Estados Directores do Mundo nos finais do Século XV e durante, praticamente, todo o Século XVI, deixando de fora várias regiões do Globo e os países que nelas existiam, designadamente, a China.
  A curiosidade do Rei de Portugal, ainda que metodologicamente não seja um primôr aos olhos de um analista dos nossos dias, é reveladora de uma atitude científica de base, franca-mente inovadora para a época. A modernidade de semelhante atitude ganha maior realce quando inserida no contexto medieval da Europa onde, à excepção do mundo islâmico, era completa a ignorância sobre o mundo não europeu.
  Nesse contexto, a China foi sendo um mito construído sobre a ignorância da sua existência real e a visão fantasiosa da realidade, transmitida por observadores europeus esporádicos cuja capacidade analítica estava previamente afectada pela angustiosa necessidade de encontrar a Oriente um aliado poderoso, susceptível de conversão ao cristianismo e que pudesse ajudar a Europa na luta contra o Islão.
  Essa construção mítica teve por ingredientes principais a crença medieval que pretendia a existência do Paraíso bíblico no limite oriental da Terra e as observações esporádicas de europeus que, afectados por tal crença, viram uma China que não existia de facto. É o que se passa com Frei Giovanni dei Pian dei Carpine, enviado do Papa Inocêncio IV na missão “ad Tartaros” (1245/47) e com Frei Willelm de Rubruck, enviado de Luís IX de França (1253/55). Os dois ficaram-se pela visita ao império tártaro mas não deixaram de fornecer notícias sobre os chineses, sem que tivessem visitado a China nem conhecido o povo Han. O poder da sua imaginação mítica e a obsessão anti-islâmica eram tão grandes que Frei Giovanni del Carpine afirma, com absoluta falta de fundamento, que os chineses possuíam o Antigo e o Novo Testamento, as Vidas dos Santos Padres e rezavam a Deus e a Cristo em edifícios como igrejas…(2).
  A Europa rompe com este passado de fábula na representação do Oriente, em geral, e da China, em particular, pela mão dos portugueses, decorridos mais de dois séculos. A primeira obra europeia em que a China e o povo Han vêm sistematicamente tratados com base em dados fornecidos pela observação directa da realidade é de autoria do dominicano português, Frei Gaspar da Cruz(3).

2. Os primeiros contactos entre europeus e chineses


  À curiosiosidade científica visível no regimento de Diogo Lopes de Sequeira, seguem-se dois momentos que atestam a vontade dos portugueses em conhecerem a China e os chineses e de se darem a conhecer a estes, como Povo e como País.
  Um, respeita aos contactos mantidos entre portugueses e chineses durante a tomada de Malaca, em 1511. Embora não se encontre referenciado nas suas fontes primárias, a historiografia chinesa refere-se-lhe por citação de autores ocidentais. É o que acontece com Zhou Jing Lian na obra “História Diplomática entre a China e Portugal” quando refere:“Pode concluir-se que AIbuquerque, durante a tomada de Malaca, tratou os comerciantes chineses com muita atenção, procurando estabelecer relações de amizade e, assim, preparar o futuro relacionamento comercial com a China. Era, afinal, a missão anteriormente confiada a Sequeira pelo Rei de Portugal”(4).
  O outro momento refere-se à viagem daquele que teria sido o primeiro chinês a pisar solo português, cuja notícia se colhe do documento escrito em Cochim, aos 6 de Abril de 1512:“Ordem de Afonso de Albuquerque a Lourenço Moreno para dar a quantia de 1 $ 500 a um China que embarcava para Portugal…pera suas necessydades e seu gasto.”(5). Infelizmente, como refere J. M. Braga, não parece existirem documentos que descrevam a visita desse homem a Portugal, não havendo, portanto, provas de que se tenha concretizado mas apenas dos seus preparativos.
  Seja como for, os primeiros contactos entre os portugueses e os chineses ocorreram em Malaca e desenrolaram-se num clima de recíproca cordialidade e de evidente desejo de amizade atestada no convite para visitar Portugal, com despesas pagas, a um representante desse povo recém-conhecido com o qual se pensava e desejava poder vir a estabelecer relações de amizade fraterna, assentes na paternidade comum do mesmo Deus, e de cooperação e intercâmbio comercial. Creio que é norma comum de todas as sociedades e culturas só se convidarem para casa as pessoas com quem se têm ou se pretendem ter relações de convivência amigável.

3. A primeira viagem à Ohina


  A convivência pacífica e amigável, em Malaca, entre portugueses e chineses, as informações trocadas entre os pilotos de ambos os países, a aprendizagem das técnicas de pilotagem de juncos chineses pelos portugueses, a disponibilidade daqueles em acompanharem estes à sua terra, entre outros aspectos, terão estado na origem da primeira viagem de um português à China protagonizada por Jorge Alvares, em meados de 1513. Dessa primeira visita deu conta o segundo capitão de Malaca, Jorge de Albuquerque, sobrinho de Afonso de Albuquerque, em carta enviada ao Rei D. Manuel I, datata de Janeiro de 1515 que a ele se refere como tendo sido “ho primro homem que pooz marquo per vosa alteza/foi mui bem laa recebido/os chins folgam com nossa companhja…”(6).

4. As primeiras imagens recíprocas


  Nestes contactos iniciais, os portugueses convenceram-se que o seu interesse pela China e pelos chineses era retribuído pela outra parte. Todavia, assim como uma andorinha não faz a Primavera, também os sentimentos de amizade que os portugueses vislumbraram nos chineses com quem privavam em Malaca náo eram representativos da complexa e ultra-fechada China dos Ming.
  Diagnosticado o estado de espírito dos portugueses nos seus primeiros encontros com a desconhecida e misteriosa China, interessa conhecer como reagia a China real a tais apaixonados desconhecidos. Antes, porém, como quem desfolha um álbum de fotografias, tem interesse rever os primeiros retratos que europeus e chineses fizeram uns dos outros.
  Afonso de Albuquerque, em carta ao Rei D. Manuel I, retrata os chineses como “servidores de Vossa Majestade e nossos amigos”(7). Andrea de Corsalis, astrónomo e cosmógrafo, em carta a Giulliano de Medici escrita em Cochim, no mês de Janeiro de 1515, retrata os chineses como “pessoas com muito talento que não são inferiores a nós. Simplesmente, são feios na aparência, com dois olhos pequeninos, vestuário quase semelhante ao nosso e usam sapatos com meias. Têm outra crença religiosa, mas existem rumores de que praticam também o cristianismo. Não sei se é verdade”(8). “são brancos como nós”, informava Giovanni da Empoli da mesma cidade e no mesmo ano, a 15 de Novembro(9).
  O “~^album fotográfico” dos portugueses, feito pelos chineses dos princípios do Século XVI tem um colorido mais forte:
  “Gente de nariz comprido e olhos encovados” descrevia Gu Ying Xiang, ministro da justiça que desempenhara as funções de inspector da defesa costeira da província de Cantão em 1517, quando aí aportou a armada comandada por Fernão Peres de Andrade transportando Tomé Pires, primeiro embaixador português na China(10).
  “Conhecidos pela sua astúcia e ferocidade, com armas superiores às de todos os outros países estrangeiros, os portugueses, no ano passado, conduzindo grandes navios, entraram inesperadamente em Cantão. O troar dos seus canhões fez estremecer a terra. Os que ficaram em Huai Yi violavam as regras e os que entraram na capital eram muito arrogantes. Se os deixarmos continuar as suas actividades comerciais, vai haver certamente luta e morte e as calamidades no sul não terão fim”(11).
  “O comandante da armada chama-se capitão. Todos eles têm nariz comprido, olhos encovados e a cabeça envolta por um pano branco como os muçulmanos. O governador Chen Jin foi informado e veio a Cantão tendo mandado os portugueses aprender regras de etiqueta durante três dias em Guang Lin Si por não saberem boas maneiras, a fim de poder recebê-los mais tarde”(12).
  “.... há permanentemente navios estrangeiros no mar e bárbaros infestando por todo o lado”(13).
  “Os portugueses todo-poderosos expulsaram o Rei de Malaca, cruel e perversamente”(14).          
  “No princípio do reinado de Jiajing (1522/1567), Portugal mandou um enviado à China para pagar tributo. Os primeiros que chegaram traziam dinheiro. Mais tarde descobriram... Adoravam comer crianças dizendo que no seu País só o Rei tinha esse privilégio. Às escondidas, compravam crianças de cerca de dez anos de idade que comiam. Cada criança era comprada por cem taéis. Entào, os marginais da província de Cantão começaram a disputar o rapto de crianças. Ferviam água num recipiente enorme sobre o qual punham um utensílio em ferro (tipo peneira) com a criança dentro, até perder todo o suor. Retirada daí, com um escovão de ferro, tiravam-lhe a pele amarga enquanto a criança dava ainda sinais de vida, abriam-lhe a barriga, retiravam o estômago e os intestinos, cozinhando-a em banho maria e comendo-a em seguida. Decorridos dois a três anos, era cada vez maior o número de crianças raptadas. As pessoas das redondezas andavam aterrorizadas”(15).

5. As primeiras complicações


  De todos os retratos que os chineses fizeram dos portugueses nos princípios do século XVI, este parece ser o mais pormenorizado mas, naturalmente, o mais irrealista. Não havendo indícios da prática de antropofagia entre os portugueses ao longo de toda a sua História, esta ficção parece poder encontrar a sua origem num emaranhado de confusöes cuja ponta da meada se situa num personagem tenebroso que desempenhou as funções de intérprete de Tomé Pires, o “Huozhe” Ya San.(16)
  A historiografia portuguesa é escassa em informações a seu respeito. O mesmo não acontece com a historiografia chinesa, felizmente:
  “Havia um chinês,‘Huozhe’ Ya San, fluente em português que servia como intérprete de Pires”(17).
  “Os portugueses.../..../... mandaram Ya San disfarçado de enviado de Malaca. Chegado a Ao(18), espiava para se familiarizar com os caminhos, raptava e comprava crianças que cozinhava e comia”(19).
  “O Imperador Wuzong visitava o sul Nanquim. Jiang Bing(20), muito poderoso na Côrte, apresentou Ya San ao Imperador que simpatizou muito com ele, acolheu-o e levou-o para Pequim.../..../... Afirmava falsamente que era enviado de Malaca e na audiência concedida pelo Imperador pretendeu um lugar superior aos outros estrangeiros”(21).
  “Ya Sane Pires chegaram a Pequim sob a falsa qualidade de enviados de Malaca./.../. Pires não saberia do artificio usado por Ya Sane mantinha-se no convencimento de que chegava a Pequim na qualidade de embaixador de Portugal, ignorando ser tomado por adjunto de Ya San./.../. Pouco tempo depois chegava à China o enviado do Rei de Malaca pedindo socorro.../. A maquinação de Ya San, fazendo-se passar por enviado de Malaca, foi desmascarada na Côrte Ming.../. O Imperador tomou conhecimento.../.../... falecendo pouco depois.”(22).
  “Preso e interrogado, Ya San declarou que era originariamente chinês e que se encontrava ao serviço dos estrangeiros.”(23).
  “Shizong subiu ao trono. Sendo muito grave o acto de Ya San, querendo fazer-se passar por enviado de Malaca, foi condenado à morte e decapitaclo. Pires ficou preso em Cantão, em 1521”(24).
  A descrição de Ya San que se colhe da historiografia chinesa parece indici~-lo, bem assim como a outros companheiros seus, de práticas antropofágicas de que, naturalmente, excluo os portugueses. Vindo, porém, em sua companhia, é provãvel que se generalizasse a ideia de que aquilo que era feito por alguns era prática comum de todos.
  Por outro lado, se bem que a compra e venda de crianças fosse prática corrente na China anteriormente à chegada dos portugueses (25), entre os actos repreensíveis praticados por Simão de Andrade em Tamão Tun Men, conta-se a compra de crianças chinesas raptadas (26). Obviamente não seria para as comer mas, provavelmente, para as utilizar como força de trabalho e para as vender como escravas (27), como era usual fazer-se na época aos adversários que se capturavam.
  À fama, sem proveito, de serem antropófagos, veio juntar-se a fama, com proveito, do tráfico de seres humanos praticada por Simào de Andrade. Amalgamando ambas, ficou composto esse lamentável “retrato” chinês dos portugueses do século XVI.
  Como reagia a China à cega paixão que por ela nutriam esses desconhecidos portugueses?

6. A China dos Ming


  O primeiro Imperador Ming, Hongwu (1368/1399), plebeu de origem camponesa, fiel às suas raízes, estabeleceu regras de protecção à agricultura e de forte repressão ao comércio e à navegação para o exterior: “No início, o fundador da Dinastia Ming estabeleceu regras não permitindo que nem uma tábua entrasse no mar”(28) , “…proibiu os navios mercantes de ir ao estrangeiro fazer comércio”(29), mas “os habitantes do litoral de Fujian infrigiam a determinação que proibia o comércio com o exterior e faziam-se ao mar, em direcção a vários países onde mercadejavam”(30).
  Intensificou-se a guerra contra os mongóis na fronteira noroeste e o combate à pirataria, protagonizada por japoneses e chineses rebeldes do litoral(31). As trocas comerciais com os países vizinhos foram submetidas a um apertado controlo cometido às autoridades costeiras que reprimiam a actividade comercial dos particulares e velavam pelo cumprimento das normas imperiais, reunidas no “Da Ming Hui Dian”(32). que regulavam a entrada de navios estrangeiros: pertencerem a país tributário previamente reconhecido e registado; aportarem na época autorizada; não ultrapassarem um determinado número de tripulantes; etc. An Nan (Vietname), Zhen La (Cambodja), Zhan Cheng (Champa/sul do Vietname), Su Men Da La (Sumatra), Zhao Wa (Java), Peng Heng (Pa Hang/Pa Hão/Leste da Península malaia), Bo Ni (Bornéu), San Fo Qi (Palembang/Indonésia), Xian Luo (Sião/Tailândia), Ma La Jia (Malaca), Liu Qiu (Léquias), etc., constituíam a lista dos países tributários registados cujos navios mercantes estavam autorizados a entrar na China.

7. A reaoção da China à paixão dos portugueses


  Em semelhante contexto político que pretendia fechar hermeticamente a China sobre si mesma, o aparecimento dos portugueses no seu litoral foi encarado pelas autoridades como uma intrusão inaceitável a que se deveria pôr termo por qualquer preço. Um pouco por toda a documentação histórica chinesa coeva ecoa o troar dos canhões de frota de Fernão Peres de Andrade à chegada ao porto de Cantão(33),(34). Sem propósitos belicistas, tanto mais que a sua missão principal era de natureza diplomática a escolta do primeiro embaixador português à China e não obstante as explicações dadas ao governador de Cantão de que se tratava de uma prática festiva e de cortesia, e que foram formalmente aceites(35), foi enorme o abalo da China Ming feudal(36).
  Se a actuação pacífica, ainda que ruídosa, de Fernão Peres de Andrade causara espanto e temor mas entreabrira as portas ao diálogo luso-chinês, a actuação violenta de seu irmão Simão de Andrade em Tamão, onde chegara em Agosto de 1519, viria a deitar todos os esforços anteriores por terra e constituiu a causa principal do inglório fim da missão diplomática de Tomé Pires “e de todas as desgraças que os portugueses sofreram na China durante cerca dos trinta anos seguintes”(37).
  Todavia, para além das confusões de Ya Sane das violências de Simáo de Andrade, a conquista de Malaca pelos portugueses em 1511 constituiu um insanável percalço ao desejo de Portugal de estabelecer relações com a China.
  Fundado em 1396 por Parameswara, o sultanato de Malaca era- como outros países da região - vassalo do Imperador da China. Logo em 1403, o Imperador Chengzu enviou a primeira missão comercial chefiada pelo eunuco Yin Qing. Em 1406, o mesmo lmperador concedeu ao sultão de Malaca o título de Rei e, novamente, Yin Qing desloca-se aí para lhe dar posse do território e levantar um padrão assinalando a relação de suzerania e vassalagem para as gerações vindouras.
  Em Setembro de 1405, Parameswara visitou Pequim onde foi recebido pelo Imperador Yongle que lhe confirmou o título de Rei, ofereceu-lhe o selo e as vestes reais e alguns objectos preciosos. Novamente, em 1411, Parameswara visitou o Imperador com uma comitiva de 540 pessoas(38).
  Este estreito relacionamento da China com os países vizinhos(39) no contexto isolacionista da Dinastia Ming não pretenderia a dominação económica ou mesmo política destes. Visava sobretudo acautelar a paz na região como modo de garantir a segurança das fronteiras e o isolamento da China. No memorando intitulado “Acerca de prestar grande importância às fronteiras para o renascimento do povo”, Wang Xi Wen afirma:“Atrevo-me a dizer que receio que na Terra não haja assunto de maior importância do que a defesa das fronteiras; na defesa das fronteiras, a chave é o litoral”(40).
  A paz ideal na região 'e retratada no memorando do inspector imperial Lin Fu, datado de 1529, em que afirma:“Xian Luo (Sião), Zhen La (Cambodja), Zhao Wa (Java), San Foji (Palembang) e outros países, desde o início do reinado do Imperador Hongwu (1368) vinham pagando tributo e têm sido sempre ordeiros.../.../... os povos estrangeiros do sul são muito cordatos por natureza. Ao longo de cem anos, nunca ousaram invadir-nos”(41).
  Foi este equilíbrio que os portugueses romperam com a conquista de Malaca. No dizer do inspector imperial Qiu Dao Long, em memorando elaborado em 1518,“Malaca é um país vassalo que os portugueses ousaram ocupar e tentam agora seduzir-nos com benesses pedindo para lhes ser concedido o estatuto de tributários, o que não pode ser permitido, convindo não atender o seu embaixador, mostrando explicitamente o que é obediência e o que é desobediência e ordenando-lhes a devolução de Malaca. Só assim poderão ser admitidos como tributários(42).
  Acontece que Portugal jamais teve a intenção de pedir à China a concessão do estatuto de país tributário/vassalo. Não obstante, toda a documentação chinesa coeva repete incessantemente tal pedido inexistente. A indução em erro de toda a historiografia chinesa, até aos nossos dias, àcerca de tal pedido que Portugal nunca fez, explica-se através da actuação dos intérpretes que serviam o embaixador Tomé Pires, “Huozhe” Ya San Incluído, claro:“... Pires entregou na Côrte três cartas de que era portador: uma do Rei D. Manuel, para ser aberta apenas na presença do Imperador, outra de Fernão Peres de Andrade e a terceira dos Governadores de Cantão./.../Mas a carta deste Fernão Peres de Andrade foi, em Cantáo, traduzida pelos intérpretes chineses, segundo o estilo da terra, os quais, entre outras coisas, escreveram que o Rei de Portugal desejava ser vassalo do Rei da China. Tomé Pires nada sabia, claro está, do teor da fantástica traduçào. Quando a carta selada de D. Manuel foi aberta no palácio imperial e traduzida, verificou-se que o seu espírito era, naturalmente, por completo diferente do que os intérpretes tinham escrito em nome de Andrade. Os intérpretes aceitaram a responsabilidade pela deturpação, explicando que assim haviam feito com o melhor intuito, para adaptá-la ao costume da terra”(43).
  Naturalmente que o Rei de Portugal só poderia desejar entender-se com o Imperador da China numa base de igualdade mas nunca de dependência, atenta a posição liderante de Portugal no contexto mundial. Mas o conceito chinês da posição central ocupada pela China na região do mundo onde se insere influenciou o trabalho dos intérpretes que não conheciam outro modo de relacionamento de qualquer país estrangeiro com a China que não fosse o de vassalo para suzerano.
  Com a conquista de Malaca, os portugueses romperam o equilíbrio desejado pela China para a região e ameaçavam o seu indiscutível papel secular de Estado-Director/Suzerano de um conjunto de países vassalos.

Conolusão


  Durante os primeiros decénios, a presença dos portugueses no sudoeste asiático e nos mares da China foi intensamente combatida pelas autoridades do País. Mas a sua paixão pela China a tudo resistia. Expulsos, mortos ou aprisionados num lado, logo procuravam fixar-se noutro: Shang Chuan (Sanchoão), Tun Men (Tamão, Ningbo (Liampó), Zhanzhou (Chinchéu) e Lian Bai (Lampacau) desapareceram como pétalas secas das flores da paixão chinesa dos portugueses. Apesar de todas as dificuldades por que passaram ao longo de séculos, o juízo isento da História não pode deixar de contabilizar, ao lado do passivo representado por Simão de Andrade em Tun Men, que aos portugueses se deve, entre outros benefícios, a introdução do conceito de tratamento hospitalar e o primeiro hospital, o primeiro farol de sinalização marítima costeira, a primeira tipografia de caracteres móveis, a primeira Universidade e a primeira instituição democrática de administração local-o Leal Senado.
  Tudo isto aconteceu nesta encantadora terra onde nos encontramos e que perdurou como flor viçosa ao longo de séculos.
  Macau é nos nossos dias, de certo modo, o símbolo dos valores que os portugueses colocaram ao serviço da Humanidade. O Mundo que herdámos é, numa boa parte cujo balanço está por fazer, o produto das trocas culturais que se verificaram entre as diversas culturas e civilizações repartidas pelos cinco continentes, principalmente e por causa das viagens marítimas dos portugueses nos séculos XV e XVI.
  Uma leitura inteligente da História da Expansão Portuguesa no Mundo tem necessariamente de ser esbatida dos episódios de força e de domínio, para que se decante todo o substracto pacífico do encontro e da troca de culturas e do contributo de PortugaI para a aproximação universal e para o progresso dos povos. Nesta óptica de análise, as salvas dos canhões da armada de Fernão Peres de Andrade à entrada do porto de Cantão em 1517 constituem o símbolo do despertar da China para a dimensão planetária do Mundo.
  (1)“Regimento dado a Diogo Lopes de Sequeira, para ir descobrir a parte oeste da ilha de São Lourenço, pois a outra era já toda descoberta, e quaesquer terras até Malaca, tomando de tudo enformação” (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Corpo Chronologico, parte I, maço 6 n° 82) reproduzido in “Alguns Documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, ANTT, 1892, pp. 194/195, e também in Cartas de Afonso de Albuquerque, Lisboa, 1884, rol. III, pp. 403/419.
  (2)“Sinica Franciscana: hinera et Relationes Fratrum minorum soce. XIII ec XIV”. Ed. crítica organizada por P. A Van den Wyngaert, Vol, I, Firenze, 1929.
  (3)Cruz, Fr. Gaspar da-“Tractado das Cousas da China e de Ormuz” 1a Ed. Lisboa, 1570; 2a Ed. Lisboa, 1829; 3a Ed. Barcelos, 1937. O autor viveu na China entre 1556 e 1569 e esta sua obra relata o que viu e o que leu e ouviu “a h#u homem fidalgo e de crédito por nome Galiote Pereira.../.../... que nesta cidade de Cansi esteve, houdo callvo...”.
  (4)Zhou Jing Lian -“História Diplomática entre a China e Portugal”. Editora Comercial de Xangai. 1aedição. Outubro de 1927; Editora Comercial de Pequim. 2a edição. Junho de 1991.
  O texto acima transcrito segue-se à citação da obra de Danvers “Portuguese in India” relativamente aos contactos mantidos entre Afonso de Albuquerque e as tripulações de juncos chineses que estavam ancorados no porto de Malaca e assistiram à sua conquista pelos portugueses.
  (5)Braga, J.M.-“China Landfall, 1513”. Macau, Imprensa Nacional, 1955.
  (6)Keil, Luís-“Jorge Alvares-O Primeiro Português que foi à China-(1513)”. Tipografia Beleza. Lisboa.1933. A carta de Jorge de Albuquerque, existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Corpo Cronológico, Parte III, Maço 5, n° 87, vem parcialmente reproduzida por fotografia e transcrita a parte que se cita.
  (7)Albuquerque, Afonso-“Cartas”. Lisboa. 1884. Vol. Ⅰ.
  (8)Ramúsio, G.B.-“Navigazionl e viaggi” Ⅱ, Torino, Eunaudi, Ⅰ, 1978.
  (9)Faria, F. Leite de/Mota, A. Teixeira da-“Novidades náuticas e ultramarinas numa Informação dada em Veneza em 1517”, in Memórias da Academia de Ciências de Lisboa, classe de ciências, tomo XX, Lisboa 1977.
  (10)Hu Zong Xian e Zheng Ruo Zen-“Chou Hai Tu Bian”, Vol. 13. Obra sobre a Dinastia Ming, em treze volumes, compilada por Hu Zong Xian mas produzida de facto por um seu conselheiro de nome Zheng Ruo Zen. Nela se descreve a luta contra os piratas japoneses durante a Dinastia Ming e, em especial, no reinado de Jiajing (1522/1565). Relata os contactos entre os portugueses e os japoneses desde a chegada daqueles ao extremo-oriente até pouco depois da queda dos Ming, em 1644. Inclui, pela primeira vez, mapas do litoral da China e do Japáo e elementos da História deste País. Regista também descriçöes dos combates com os japoneses travados em cada província e os que neles morreram. Batalhas, actividades comerciais, mapas, navios, armas e dispositivos militares de defesa ao longo da costa, são registados com detalhe. A parte final da obra é dedicada às questöes de estratégia militar.
  (11)Excerto do memorando dirigido à Côrte pelo inspector imperial He Ao nos finais do reinado de Zhengde (1506/1522), in: Vários-“Ming Shi Lu”, crónica compilada por letrados da Côte Imperial que abrange o período compreendido entre o inicio da Dinastia Ming (1368) e 1627. Trata-se de obra extensa, reproduzida manualmente e que somente em 1940 foi editada por fac-simile do manuscrito pertencente à Biblioteca de Nanquim. Foram feitos quinhentos exemplares dos seus 2. 925 volumes.
  (12)Hu Zong Xian e Zheng Ruo Zen, ob. cit.
  (13)Vidé nota 10.
  (14)Extracto do memorando elaborado pelos inspectores imperiais Qiu Dao Longe He Ao, em 1520, in:
  Gu Yan Wu-“Tian Xia Jun Guo Li Bing Shu”. 120 volumes. Obra predominantemente dedicada à geografia, compilada entre 1639 e 1662. A primeira parte é geografia geral, seguindo-se a descrição da capital e de catorze províncias. Descreve detalhadamente o relevo a hidrografia, os terrenos e as produç~oes agrícolas, os postos oficiais, as fronteiras, as passagens estratégicas, etc. Com forte pendor para a análise da situação económica e militar da China, inclui também a Indochina e outras regiões vizinhas da China e, ainda, as “regiões ocidentais” que englobam a Asia Central e Ocidental, o sub-continente indiano, a Europa Oriental e o Norte de Africa. É uma obra inacabada, sobretudo pela falta de organizacáo do seu conteúdo.
  (15)Gu Yan Wu, ob. cit. Transcri□o de um registo existente no livro “Yue Shan Cong Tan”.
  (16)Nas dinastias Ming (1368/1644) e Qing (1644/1911), pelo menos, nas províncias de Cantão e Fujian principalmente, as famílias abastadas compravam filhos de familias pobres que castravam e punham ao seu serviço. A estes eunucos dava-se o nome de “Huozhe”. Raffaella d’ Intino-“Enformação das Cousas da China”, atribui significado diferente a este termo:“... Cojação./.../... é o nome que aparece nos textos chineses como Houo-Tcho Ya san; Houo Tcho é a transcrição em chinês do título muculmano hoja (persa hwaj ah, malaio koj ah ‘mestre’, Ya san, Asan do árabe Hasan. Cojação estava entre os intérpretes de Tomé Pires, e Cristóvão Vieira narra que morreu em Pequim em 1521”.
  Todavia, com a segurança que é fornecida pela informação pormenorizada da documentação chinesa sobre Ya San, podemos concluir que o “Huozhe” ou “Houo Tcho” Ya San foi o intérprete principal de Tomé Pires que pretendeu fazer-se passar por enviado de Malaca à China. Era originariamente chinês - como confessou antes de ser decapitado em Pequim - fluente em português e que terá fugido ou sido raptado pelos piratas japoneses do litoral do seu Pais tendo-se radicado posteriormente num outro pais da regiáo - provavelmente, Malaca - onde travou conhecimento com os portugueses e aprendeu a sua língua. Na historiografia chinesa silo, aliás, abundantes as noticias de chineses que seguiram o mesmo percurso, radicando-se em pa'ises vizinhos onde tomaram nomes nativos e alguns atingiam altos cargos, o que lhes permitia ir 'a China como enviados desses reinos ou como intérpretes das respectivas comitivas. O “Huozhe” Ya San não foi o primeiro caso.
  “A maioria dos enviados dos países vizinhos não são naturais deles. Silo gente sem vergonha da nossa China que muda de nome, oculta a sua origem e alcança indevidamente lugares de mando, tudo porque a China fica longe e não há modo de serem descobertos” (Yang Cong Jian - “Shu Yu Zhou Zi Lu” - Vidé nota 21).
  (17)Zhou Jing Lian - ob. cit.
  (18)“Ao” significa porto. Inclinámo-nos inicialmente pela hipótese de se tratar do porto de Cantão. Todavia,especialistas chineses do período Ming a quem essa dúvida foi exposta garantem tratar-se de Macau.
  (19)Vidé nota 13.
  (20)Eunuco favorito do Imperador Wuzong.
  (21)Yan Cong Jian-“Shu Yu Zhou Zi Lu”, obra sobre a Dinastia Ming, em vinte e quatro volumes, concluída no ano 2 do reinado de Wanli (1574), aproximadamente, baseada na documentação existente nos arquivos imperiais no tempo em que o autor os dirigia, divide-se em quatro partes, de acordo com o mesmo número de regiões geográficas conhecidas na época, contendo descrições detalhadas de terras longínquas.
  (22)Zhou Jing Lian-Ob. cit.
  (23)Zhang Ting Yu e outros-“Ming Shi”. E uma História da Dinastia Ming concluída no ano 13 do reinado de Yongzheng (1735) e publicada no ano 4 do reinado de Qianlong (1739).
  (24)Zhou Jing Lian-Ob. cit.
  (25)Cfr. nota 16.
  (26)Cortesão, Armando-“Primeira Embaixada Europeia à China. Ed. Instituto Cultural de Macau. 1990:” Quando Fernão Peres de Andrade deixou Pires em Cantão em Setembro de 1518, dissera aos Governadores que, no ano seguinte, outro Capitão português iria com uma armada buscar o Embaixador. Andrade chegou à India em fins de 1518 e o novo Governador, Diogo Lopes de Sequeira, que tomou posse em 27 de Dezembro, nomeou seu sobrinho António Correia para ir com uma esquadra à China, evidentemente com o propósito de buscar Pires e seus companheiros. Mas Simão de Andrade, irmão de Fernão Peres de Andrade, tinha escrito a D. Manuel Rei de Portugal, em 10 de Agosto de 1518, de Malaca, onde era Capitão do Mar, enumerando os serviços prestados e pedindo, como recompensa, a sua nomeação para qualquer cargo mais importante. O Rei.../.../... enviou um alvará autorizando a sua ida como Capitão duma esquadra quando seu irmão regressasse. Simão de Andrade.../.../... foi enviado à China em lugar de António Correia. A sua pequena frota chegou a Tamão em Agosto... de 1519.
  Contrastando singularmente com seu irmão, Simão de Andrade era homem de pouco tacto, caprichoso e violento.../.../... que se tornou a causa principal do triste fim da embaixada de Pires e de todas as desgraças que os portugueses sofreram na China durante cerca dos trinta anos seguintes./... cometeu vários actos que as autoridades chinesas consideraram que infringiam as suas leis, tais como a construção de um forte de pedra emadeira em Tamão, sob pretexto de defesa contra os piratas, e o levantamento de uma forca em que um marinheiro foi executado”.
  (27)Dai Yu Xuan - “História da Dinastia Ming-Capítulo sobre Portugal”. Editora da Academia de Ciências Sociais da China. Janeiro de 1984.
  O autor, catedrático de História da Universidade de Cantão, falecido há poucos anos, nutria um radical anti-portuguesismo primário que destila em cada página deste seu livro de modo tão pouco sereno e tão acientífico que nunca se refere aos portugueses sem os designar por “piratas-eolonialistas-portugueses”. Apesar disso, ao comentar os registos que atribuem aos portugueses o rapto e a compra de crianças para comer, afirma:“~'E evidente que se trata de exagero. Mas é um facto que raptavam e compravam homens e mulheres para vender como escravos, o que era um dos crimes habituais dos comerciantes-piratas-colonialistas -portugueses”. Todavia, a compra de crianças pelas famílias abastadas às familias pobres em Cantão e Fujian e a sua castração nëo parece merecer a mais leve condenação do autor...
  (28)Zhang Ting Yu e outros-ob, cit.
  (29)Gu Yan Wu-Ob. cit.
  (30)Zhou Jing Lian-Ob. cit.
  (31)Jiang Yi Hua-“A origem social e cultural das navegacões da frota de Zheng He”, in Actas do Seminário de Ciência Náutica e Técnicas de Navegação nos séculos XV e XVI. Ed. Instituto Cultural de Maeau e Centro de Estudos Marítimos de Macau. 1988:“como o objectivo principal da política se cifrava na protecção da produção agrícola ;do país e na paz junto às fronteiras, toda a política externa tinha natureza defensiva e n~~eo expansiva”.
  (32)“Da Ming Hui Dian”-Elaborada no reinado de Hongzhi (1488/1505), aumentada no reinado de Jiajing (1522/1565) e refeita em 1587, no reinado de Wanli (1573/1619), esta obra é um extenso código administrativo composto por 228 volumes. Nela se regulava o funcionamento da máquina administrativa da China que no topo tinha seis ministérios eujos titulares reportavam directamente ao Imperador. Constitui documento essencial para o estudo pol'itico-administrativo da Dinastia Ming.
  (33)O “Ming Shi Lu”, ofr. nota 11: O “Ming Shi-Capítulo sobre Portugal”, cfr. nota 23; o “Chou Hai Tu Bian”, cfr. nota 10, etc.
  (34)Zhang Xie-“Dong Xi Yang Kao”, obra sobre a Dinastia Ming, em doze volumes, concluída no ano 45 do reiriado de Wanli (1617) que trata a História, a Geografia, as produções e o comércio de vários países do sudeste da Asia.
  (35)idem:“O ruído do canhão parecia trovoada. Na altura, Gu Ying Xiang, responsável pela defesa costeira, verberou esse gesto anormal que ignorava os costumes chineses. Após repetidas explicações de Andrade dizendo que para além de uma demonstração de cortesia não tinha outras intenções, desfez-se a suspeita de Gu Ying Xiang...”
  (36)Zhou Jing Lian, ob. cit.:“Aqui se referem as salvas da praxe dos navios de Andrade e Pires. Como o nosso pais não tinha esse costume, tal acontecimento foi especialmente descrito para mostrar o espanto causado”.
  (37)Cortesão, Armando-Ob. cit:“Não sabemos se estes e outros actos mais repreensíveis.../.../...foram praticados antes de Pires ter partido de Cantão, mas sem dúvida tiveram a mais desastrosa repercussão em acontecimentos futuros”. Também não o podemos afiançar com base na documentação chinesa mais relevante que é constitu'ida por dois memorandos dos inspectores imperiais He Ao e Qiu Dao Long. O primeiro, em 1518, reage negativamente à chegada de Fernão Peres de Andrade e Tomé Pires “no ano passado”. O segundo, elaborado em Dezembro de 1520, dá largo relato dos cometimentos de Simão de Andrade e terá sido recebido pelo Imperador Wuzong pouco antes de morrer, em 1521. Segundo a documentação, chinesa, Pires partiu de Cantão em 23 de Janeiro de 1520, chegou a Nanjing em Maio do mesmo ano de onde retomou a viagem para Pequim em Janeiro de 1521, estando de regresso a Cantão em Setembro de 1522 onde ficou com estatuto prisional leve até Agosto de 1523, data em que foi despojado de todos os bens e passou a ser tratado como os demais presos até à sua morte, em Maio de 1542. Se bem que as fontes chinesas atrasem um ano as datas do regresso a Cantão e do internamento na prisão em relação às fontes portuguesas, é curioso notar que a data da morte coincide com a que é reportada por Cristóvão Vieira, companheiro de infortúnio de Pires na China, contrariando assim as afirmações de Fernão Mendes Pinto de que o embaixador português vivera ainda longo tempo após ter sido deportado para fora dos limites da província de Cantão e casado com uma dama chinesa abastada de que tivera uma filha de nome Inês de Leiria.
  (38)Zhang Ting Yu e outros-ob, cit. -“Capítulo sobre Malaca”.
  (39)Agoncillo, Teodoro A./Guerrero, Milagros C.-“History of the Filipino People”, 7 th Edition, Quezon City, 1987:“Os chineses retomaram o controlo do comércio filipino quando o imperador Yongle(14021424) subiu ao trono. Yongle enviou tuna grande frota composta de mais de sessenta navios às Filipinas sob o comando do almirante Zhen He. A frota visitou Lingayen em Pagasinan, a baia de Manila, Mindoro e Sulu. Estas visitas tiveram lugar em 1405-06, 1408-10 e 1417. Durante um curto período, o Imperador da China tentou mesmo estabelecer uma espécie de soberania sobre Luzon e enviou Ko-ch’alao para a ilha como “governador”. Com a morte de Yongle contudo, as suas pretensões de dom'inio sobre Luzon chegaram ao fim”.
  (40)Zhong Wu Lam e Yan Kuong Yam-“Ao Men Ji Lue”. Esta obra foi traduzida para ortuguêspor Luís Gonzaga Gomes com o título “Ou-Mun Kei-Leok”. Ed. da Quinzena de Macau. Outubro de 1979Lisboa.
  (41)Gu Yan Wu, ob. Cit., “Capítulo sobre os estrangeiros ultramarinos”.
  (42)Vários-“Ming Shi Lu”, cfr. nota 11.
  (43)Cortesão, Armando-Ob. cit